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Gilberto Elkis - Muito além do Jardim

Por: Ricardo couto/Fotos: Norio Ito

Gilberto Elkis, paisagista brasileiro de prestígio internacional, cultiva a sua paixão pelas motocicletas em um delicioso galpão em São Paulo

Profissional renomado e com projetos no exterior, o paisagista Gilberto Elkis, 55 anos, é um “nativo” da Vila Madalena, em São Paulo, onde curtiu boa parte da infância e da adolescência. Além de residir na região, ele possui o escritório de trabalho e um galpão –espaço de lazer– no mesmo bairro, onde conserva uma respeitável coleção particular com 13 motocicletas das mais variadas épocas, muitas delas bastante raras.



Para desenvolver seu trabalho, Elkis viaja muito pelo mundo, em busca de referências, e para estudar novas plantas. Sua fama como paisagista ultrapassa fronteiras: ele tem projetos nos Estados Unidos, Suíça, Chile e África. No Brasil, sua assinatura está presente nos jardins dos hoteis Unique e Emiliano, em São Paulo, e Pousada dos Inconfidentes, em Tiradentes (MG). Quando não está no exterior, percorre o país fazendo palestras ou a lazer.

“Sou consultor de uma empresa. Pesquiso materiais novos, revestimentos naturais. Com isso, vou bastante para a Ásia. São lugares mais exóticos e com preços mais acessíveis que aqui. Fico bastante tempo fora do país.”

Nessas viagens, Elkis aproveita para ver as novidades e comprar acessórios para suas motos. “Sempre trago alguma coisa de fora.” Além de máquinas de verdade, ele tem como hobbies colecionar miniaturas de motos em madeira e capacetes. Outra coisa que gosta muito de fazer é cozinhar.

Praticante de skate e surfe quando jovem, Elkis acumula uma variedade de modelos, desde os antigos até os mais recentes, com destaque para exemplares militares e alguns clássicos nacionais, em perfeitas condições.

Quase toda moto que comprava ele ia guardando. Até que, com o passar do tempo, não tinha mais onde colocar a coleção. Foi daí, então, que construiu o galpão –que ele chama carinhosamente de “Clubinho”– para ter um espaço amplo e adequado para guardar seu acervo. O local escolhido foi uma casa antiga na Vila Madalena, bairro boêmio da zona oeste de São Paulo, que ele reformou e fez uma sofisticada garagem, no estilo vintage americano.


Sonho de infância

Sua atração pelas duas rodas começou ainda na infância, aos 13 anos de idade. “Eu queria ter uma moto, mas meus pais não deixavam. Então, virei garupeiro. Tinha uma turma aqui ao lado do bairro, no Jardim das Bandeiras. A gente andava para todos os lugares. Naquela época nem existia a marginal Pinheiros. Era praticamente uma rua. Costumávamos ir até Interlagos em uma Yamaha mini-enduro cinquentinha.”

Logo que completou 18 anos, Elkis tirou a carteira de habilitação e comprou uma Yamaha 125 zero km, escondido da mãe. “Deixava a moto guardada numa outra garagem. Fazia todo tipo de rolo para ela não saber. Depois ela descobriu e ficou insistindo para eu vendê-la. Então, prometeu me dar um carro, e acabei cedendo. Passaram-se dois meses, ganhei o automóvel e comprei uma Yamaha DT 180, japonesa montada em Manaus. Meu irmão optou por uma Honda XL 250. Eram as duas motos mais cobiçadas na época.”

Daí pra frente, já com a aprovação dos pais, foi trocando de modelo. “Tive uma Yamaha RD 350 (similar à que integra a sua coleção), conhecida como viúva negra. Não morri porque vendi (risos). Porque se tivesse continuado com ela eu ia também. Vários amigos se foram.”

Elkis afirma que sempre foi um aficionado por motos. Aos 23 anos foi morar nos Estados Unidos, onde fez um estágio em paisagismo. Chegando na Califórnia foi direto para uma concessionária e tirou uma Kawasaki GPZ 750 (que ficou por lá). “Rodei bastante na Califórnia. Fui para o Arizona, para Las Vegas, em Nevada, e um monte de lugares. Morava em San Diego e ia sempre para Los Angeles. Era a minha ‘ponte aérea’ com moto.”

Depois, aos 27 anos, voltou para o Brasil, e ficou um tempo a pé. Com o nascimento da filha, ele ficou com dinheiro contado para sobreviver e começar a vida profissional, conta. Assim que começou a entrar uma grana, em 1989 comprou uma Suzuki Intruder 850. “Fiquei com ela uns dois a três anos. Viajei para Punta Del Este (Uruguai), em companhia de um amigo, que tinha uma Harley-Davidson 883. Foi uma viagem superbacana.”

Quando voltou de lá adquiriu uma Harley-Davidson Softail 1.200 cc, que mantém até hoje. Essa, na verdade, viria a se tornar a primeira moto de sua coleção. “Fiz várias mudanças nela. Ela tinha bancos, manetes e bolsas de couro com franjas. Nos anos 90, a Harley estava chegando ao Brasil e isso era moda na época. Decidi transformá-la. Tirei esses acessórios, cromei várias peças e pintei a moto de preto.”

A partir de 1992 foi acumulando motos. Apesar de guardar raridades no acervo, Elkis diz que não faz distinção entre os modelos de sua coleção. “A moto mais importante é aquela em que eu estiver andando no momento. Cada uma tem seu estilo. Uma é diferente da outra. É mais ou menos que nem mulher. Agrada de todo jeito (gargalhadas).”

Coleção de raridades

A maioria das motos da coleção de Elkis é original de fábrica, como a Honda 750 Four, a Yamaha RD 350, as mini-moto-cross Montesa e Kawasaki, e três Harley, de épocas diferentes: duas dos anos 40 e uma dos anos 80. As customizadas são a Triumph Bonneville, a Harley Softail e a Moto Guzzi, modelo italiano V7 Classic, transformado em Café Racer.

As Harley-Davidson antigas são as motos mais raras da coleção. Todas originais e em impecável estado de conservação –um triciclo 1947 com compartimento de carga (de entregas), duas militares (um exemplar de 1946, pós-Segunda Guerra e uma raríssima Harley-Davidson MT500 1985 com motor Rotax, de uso exclusivo do exército americano).

“Quatro anos atrás, quando o Paulo Izzo perdeu a concessão das revendas Harley-Davidson no Brasil, comprei dele este triciclo e a versão militar H-D MT500 com motor austríaco, igual às usadas nas Guerras do Golfo.”

Trata-se de uma edição limitada, um exemplar de número 197 de um total de 200 unidades produzidas sob encomenda das forças armadas norte-americanas. Tem carenagem de plástico, farol com grade, manetes com alça de proteção e dois tanques extras de combustível nas laterais.

A outra H-D de estilo militar, a WL de 1946, pertenceu ao chef de cozinha Alex Atala, seu amigo. “Ele ia vender a moto porque não tinha mais lugar em casa para deixar. Prometi cuidar dela. A gente fez uns rolos e acabou negociando. Essa é uma moto raríssima”. De quebra, Elkis levou a pequena Montesa de 50 cc que veio no pacote. Hoje, essa Montesa faz parceria com a outra mini-motocross, uma Kawasaki de 100 cc comprada de uma pessoa que fez a importação de seis unidades. “Ela chegou aqui só há quatro anos”, afirma.

Temporariamente fora do acervo devido a uma customização, a Triumph é um modelo Bonneville recente. Até setembro ela era verde limão. Este mês foi pintada também de verde oliva e passou por uma personalização. Além da mudança de cor, Elkis trocou guidão, banco, painel e escape “A transformação deixou-a parecida com uma bobber, sem para-lama e com pneu largo de uso misto”, explica.

A Honda CB 750 Four, adquirida há cinco anos, e a Yamaha RD 350 são dois clássicos dos anos 80 que foram nacionalizados. “É só sair na rua, que as pessoas ficam loucas por elas.” A RD 350 veio de outro amigo. “O modelo era objeto de desejo dos motociclistas na época. E bem temida. Até hoje tenho receio de andar com ela”, afirma.

Ele também personalizou uma Honda Biz com pintura de rodas e grafismos na carenagem. “Foi muito usada pelos motoboys em São Paulo.” Além dela, tem dois modelos mais novos, de uso frequente, a scooter chinesa Shineray Retro e a italiana Piaggio Vespa GTV 250 que usa para se deslocar do escritório para o “Clubinho”.

Com tantas motos para manter, Gilberto conta com uma dupla para cuidar de suas preciosidades. Seu jardineiro se encarrega da conservação e da limpeza das motos. A manutenção mecânica é feita pelo Caju, dono da FF Motorcycles, que tem oficina de customização na rua Mourato Coelho, também na Vila Madalena.

Apesar de curtir bastante as motos, Elkis afirma que não tem relacionamento frequente com outros motociclistas. “Conheço todo mundo desse meio na região, mas não faço passeios nem curto sair em turmas. Gosto de andar sozinho. De pegar a moto e dar um rolê pelo bairro.”

Até o final do ano passado ele trabalhava de moto. Fazia tudo em duas rodas. Agora, anda de vez em quando. No dia a dia, prefere usar a Vespa, que considera rápida e segura.

Com boa parte do tempo consumida pelas frequentes viagens, Elkis diz que não pretende mais aumentar o acervo. “Chega de comprar. Vou encerrar a coleção por aqui. O espaço já está lotado. Agora quero ter tempo para curtir melhor as minhas motos”, conclui.

Clube de duas rodas

O “Clubinho”, explica Elkis, surgiu da necessidade de ter um local apropriado para guardar as motos. “Antes eu as deixava entre as vagas de carros de meu prédio. Os moradores reclamavam constantemente e já me olhavam feio no elevador. Então, comprei uma casinha velha, demoli e fiz um salão.”

Tudo começou com a construção do galpão, depois a coisa foi se expandindo e virou uma grande área de lazer. Elkis montou uma cozinha no fundo, banheiros, e em seguida fez a sala de jogos e o solarium. Em agosto, o local foi matéria de capa da revista Casa & Jardim, especializada em arquitetura e decoração, pela beleza do seu projeto paisagístico.

No “Clubinho” de Gilberto Elkis há espaço para todos os modelos e estilos motociclísticos, e essa visão eclética se expande por uma adega de vinhos e um espaço gourmet. O jardim e a área externa foram projetados por ele, e incluem uma horta de temperos para condimentar seus pratos.

Clientes, arquitetos, paisagistas e amigos são os frequentadores mais assíduos do lugar. “São pessoas do meio em que eu me relaciono. Nos domingos, faço almoço familiar. Minha mãe ama esse lugar: ela dispensa restaurante para comer no ‘Clubinho’. No decorrer da semana, faço happy hours com os amigos. Cada um traz uma bebida, chamamos uma pizza e jogamos conversa fora. Gosto de cozinhar.”

Além de curtir o espaço, ele adora a Vila Madalena, bairro que está virando point de aficionados de motos. A região reúne bares temáticos, oficinas de customização, lojas etc.

“O Jacaré, da rua Harmonia, foi o primeiro que trouxe os motociclistas para a região. O legal da Vila Madalena é esse movimento de bairro, que já não acontece mais em São Paulo. Aqui existe vida de rua, o que é bem raro na cidade. Daí o motivo de ter toda essa concentração. O bairro se tornou um ponto turístico. Virou uma referência.”

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